segunda-feira, 4 de março de 2013

Estendeu-me as suas mãos...





Há momentos na nossa vida, que nos secam, que nos tiram o chão...
Depois de muito argumentar, sobre tudo o que já lhe havia ensinado, não me parecia que houvesse palavra alguma que atingisse aquele coração ingénuo. Sim, ingénuo... mas estanque às minhas palavras.

Decidi que havia chegado a hora tão difícil, que sempre desejei adiar. Contei-lhe o que é sentir que somos filhos do nada... sem terra, sem raízes, sem afectos... e pior... fazerem-nos sentir, descartáveis. Hoje, no nosso país, tudo se quer assim... até os filhos, e com a permissão da dita "legalidade".

Engana-se quem pensa, que só os bebés abortados é que morrem, esses são verdadeiros mártires do nosso tempo, mas há muitas mais crianças que são mortas, quando tratadas como algo descartável.

Contei tudo... contei como foi sentir, que tinha sido deixada para trás. Contei como foi sentir, que havia deixado de fazer parte das suas vidas... o que é sentir o abandono, a falta de afecto... a ausência... uma estrondosa ausência!

Contei a minha revolta, o quanto cresceu dentro de mim e que quase me sufocou! Contei das muitas escolhas que tive que fazer sozinha, da minha postura que tive que impor, sem facilidade alguma... mas que era premente, não havia espaço para erros, para riscos...

Contei das muitas vezes que me imaginei, a ser importante para quem me havia descartado em tão tenra idade, das oportunidades que dei... e dei tudo... até restar apenas dor, mágoa e revolta.

Os seus olhos esbugalhados enchiam-se de lágrimas e vergonha... não articulava palavra alguma, até que pronunciou: "Eu não lhe perdoo! Isso é muito grave... não se faz isso a uma criança..."

Contei-lhe ainda do caminho que trilhei, até que conseguisse perdoar ... do amor que senti, que JESUS e N. Senhora Têm por mim! Perguntei ainda:

"Percebes agora, porque sinto tanta alegria quando vou á Missa? Olha o que JESUS, me fez... pediu-me para perdoar e não se ficou por aí, pediu-me que rezasse por quem me fez sofrer, para que se convertesse... e eu fiz, e olha o que já aconteceu!"

Respeitei a sua vontade em terminar aquela conversa, que além de lhe chegar ao coração, provocou-lhe dor... e fui inundada por diversas dúvidas e pior que isso, sentimento de culpa...

Procurei ir junto da minha Mãe - N. Senhora - falar-LHE desta grande confusão que anda por aqui...

O Padre disponível, não era português mas entendia-me bem e explicava-se ainda melhor, está connosco há 50 anos! A dada altura, sem palavra alguma... o Pe. estendeu-me as suas mãos, em gesto a pedir as minhas... e eu confiei-lhas. Apertou-me as mãos em silêncio e adiantou:

"Nunca será mau, contar a verdade. Confie em Deus e confie mais em si. Jamais, repito... jamais sinta remorsos. Porém o caminho de conversão não é um caminho breve, é longo... não espere resultados já, e deixe que Deus, faça o Seu trabalho. Estou aqui todos os dias, menos ao Domingo, quando precisar, volte!"

Procurei a Mãe e ouvi um pai... quando o mundo nos rouba o que verdadeiramente nos pertence, Deus dá em dobro! Quanto a este contacto físico [o facto de o Pe. dar-me as suas mãos], cada vez me sinto mais confirmada no caminho. Tenho assistido em silêncio, a uma quase barreira invisível entre Sacerdote e leigos, uma distância absurda, que nos afasta e quase nos repele, como se sofrêssemos de doença contagiosa grave... este apertar de mãos, dá-nos força na luta, coragem e segurança para um caminho repleto de nevoeiros!

Para mim, eu vejo JESUS assim... comia com os pecadores, abraçava e deixava que o tocassem, talvez por ver assim JESUS, não LHE sinto medo algum, só quero mesmo ser cada vez mais D"Ele!